Aqui poderá conhecer melhor o novo Acordo Ortográfico, bem como outros aspetos da língua portuguesa (por vezes tão maltratada).
«Imaginem esta palavra phase, escripta assim: fase. Não nos parece uma palavra, parece-nos um esqueleto (...) Affligimo-nos extraordinariamente, quando pensamos que haveriamos de ser obrigados a escrever assim!» Alexandre Fontes, A Questão Orthographica, Lisboa, 1910, p. 9.
Com as greves, vêm os erros!
São várias as vezes que oiço e leio a palavra «aderência» em vez de «adesão».
«Aderência à Greve Geral!» no blogue Comunistas Portugueses, acedido a 28/02/12.
«Como já é tradição, ontem à noite deu-se uma guerra de números relativamente à aderência à greve. A disparidade variava entre 14% e 80%.» no speaker's corner, acedido a 28/02/12.
«Greve no centro hospitalar regista 16% de aderência. Publicado em 2004-08-06 » JN online, acedido a 28/02/12.
«Foi patética a sua reacção à greve como é patética a sua reacção aos ... mediaticamente exemplificada com a grande aderência à greve» no blogue Abrasivo, acedido a 28/02/12.
Deixo-vos com um artigo de Maria Regina Rocha, publicado no Ciberdúvidas, sobre as diferenças entre estes dois vocábulos.
As palavras adesão e aderência são muitas vezes consideradas sinónimas, pois ambas exprimem a ideia de ligação. Utilizam-se, no entanto, em contextos diferentes. Por exemplo, deverá dizer-se «a adesão do público português aos filmes», e não “a aderência do público aos filmes”. O termo adesão é utilizado normalmente em relação a pessoas, enquanto a palavra aderência se utiliza em relação a coisas, a substâncias. A palavra adesão tem o significado de «união», «junção», «acordo», «aprovação», «manifestação de apoio ou de solidariedade», «ligação ideológica», podendo ser utilizada em expressões deste género: a adesão a um tratado, a adesão a uma doutrina ou a um princípio, a adesão a um modo de vida, a uma ideia, a um partido político, a adesão a uma moda, a adesão aos filmes, ao teatro, à literatura. No conceito de adesão está presente o pensamento, a vontade, o sentimento de quem adere, de quem aprova, de quem escolhe. A palavra aderência designa a «qualidade do que é aderente», o «acto de aderir», a «ligação de superfícies», a «ligação de uma substância a outra», podendo ser utilizada em expressões deste género: a aderência dos pneus à estrada, a aderência da argila ao arado, a aderência da sujidade à pele, a aderência do pó aos móveis. A palavra aderência utiliza-se, pois, quando se pretende designar alguma substância ou matéria que está aderente a algo, ou referir uma ligação concreta, material, normalmente de pouca solidez ou que se pode vir a separar. Estou a referir os significados comuns dos termos, exceptuando os dos contextos científicos e técnicos da Biologia, Medicina e Física, em que estes termos têm significados específicos. Estas palavras são provenientes de duas palavras latinas formadas a partir do mesmo verbo latino, o verbo ‘adhaerere’, que significava aderir. Em português, aderência começou por significar “favor”, “favorecimento”, “valimento”, “protecção”, sendo no século XIX por vezes utilizada no sentido de “apego a algo” como a crenças, ideologias, seitas, mas passou a usar-se relativamente às ligações materiais, às ligações de substâncias. Os dicionários actuais, aliás, registam esse valor antigo do termo, porque presente ainda em textos modernos, como os de Almeida Garrett. Quanto à palavra adesão, ela sempre designou uma ligação forte ou uma vinculação a ideias, princípios, causas. 1.Aderência provém de ‘adhaerentia-’ (que significava «ligação», «aderência»), originária do verbo ‘adhaereo’, do particípio presente, ‘adhaerens’, ‘adhaerentis’. E o verbo ‘adhaereo’ latino significa «estar ligado a, ficar fixo em, ficar aderente a»; «estar contíguo»; «parar, não avançar». Assim, esse particípio presente significaria «estando ligado a», «aderente». Daí a pouca firmeza da ligação denominada de aderência. 2.Adesão provém do latim ‘adhaesione-’. Trata-se do acusativo do substantivo ‘adhaesio’, ‘adhaesionis’, também formado do verbo ‘adhaereo’, mas do particípio passado ‘adhaesus’, que significava «aderido», «aquilo que aderiu, que se fixou». A adesão é, assim, originariamente, mais sólida e persistente que a aderência.
Concluindo, deverá, então, dizer-se, por exemplo, «a aderência da tinta à madeira», mas «a adesão de alguém a uma causa».
Por vezes, ouço pessoas a dizer que, com o AO de 90, os dias da semana passarão a escrever-se com minúscula. Ficam algo desconfiadas quando lhes digo que não. Já eram escritos com minúscula.
Em nota de rodapé, conto-vos que houve alguém que me disse que já sabia que eram escritos com minúscula, exceto domingo, pois era dia santo. Perguntei-lhe, então, o que diriam os mulçumanos e os adventistas do sétimo dia???
Outras notas: a) não perdem o hífen (segunda-feira, terça-feira...); b) Quando iniciam a frase, usa-se a maiúscula.
Ainda a querela à volta da suspensão do Acordo Ortográfico, no Centro Cultural de Belém, neste artigo de um dos membros do Governo português que legislou a entrada em vigor da nova grafia nos organismos oficiais do país. Artigo publicado no semanário Expresso de 25/02/2012.
O recém-nomeado presidente do Centro Cultural de Belém (fundação criada pelo Estado) instruiu os seus serviços para não aplicarem o Acordo Ortográfico e retirarem os respetivos conversores dos computadores. Já se sabia que Graça Moura era um convicto opositor do Acordo Ortográfico. Está no seu direito. O que não se sabia é que um presidente de uma fundação criada pelo Estado, nomeado pelo Governo, pode desrespeitar impunemente as opções legítimas e democráticas do Estado português.
Tenta-se disfarçar as convicções pessoais numa amálgama de argumentação jurídica apressada. Mas que fique claro: é evidente que o Acordo já entrou em vigor, tanto na ordem jurídica internacional, em 1 de janeiro de 2007, como na ordem jurídica portuguesa, desde 13 de maio de 2009 (basta ler o Aviso n.º 255/2010, de 13/9). Em conformidade, o Estado definiu um calendário para a sua introdução, prevendo um período de adaptação de 6 anos. Trata-se de um período destinado a progredir na aplicação do Acordo e não a regredir, como sucede com a decisão do presidente do CCB. Em qualquer caso, nos termos desse calendário, todas as entidades administrativas devem aplicar a nova grafia desde 1 de janeiro de 2012.
Não aceito, nem como cidadão nem como contribuinte, que o presidente de uma instituição criada por entidades públicas e nomeado pelo Estado possa gerir essa instituição de acordo com as suas convicções privadas. Uma coisa é não querer escrever segundo o Acordo, outra é proibir uma instituição de raiz pública de cumprir o que foi legitimamente determinado pelo Governo e está publicado em Diário da República.
Ainda mais incompreensível é o silêncio do Governo. Quis o primeiro-ministro disfarçar a despromoção da Cultura na orgânica do Governo com a garantia de que essa área ficaria na sua dependência direta. Pois essa opção tem consequências: Passos Coelho responde pelas nomeações na área da Cultura (e Vasco Graça Moura é uma delas) e tem especiais responsabilidades sobre a política da língua e o que se passa no CCB. Perante isto, não pode ficar-se pelas frases habituais, cheias de “evidentementes”. Impõem-se algumas perguntas: vai o Governo revogar a Resolução de Conselho de Ministros n.º 8/2011, de 25/1, dispensando as entidades públicas de aplicar o Acordo Ortográfico? Vai alterar o que está a ser feito nas escolas, onde já se ensina segundo as novas regras? Vai republicar os Diários da República já publicados conforme o Acordo Ortográfico? E vai revogar a nomeação de Graça Moura (aliás escrita nos termos do novo Acordo) ou vai reescrevê-la à moda antiga? Bem sei que o tema do Acordo Ortográfico suscita ânimos, paixões e ódios. Mas não se podem admitir atitudes terroristas de quem não concorda, nem hesitações de quem tem responsabilidades.
Acresce que o consenso político em torno do Acordo não pode disfarçar a responsabilidade dos governos do PSD: foi com Cavaco Silva e Santana Lopes que, em 1990, o Acordo foi estabelecido (a conselho técnico de reputados linguistas à época). E foi com um Governo PSD/CDS (estava também Bagão Félix no Governo…) que se negociou o Protocolo que facilitou a sua entrada em vigor. Por muito que alguns estejam viciados em responsabilizar o Governo socialista por todos os males do mundo, não é possível falsear a história.
Mas há nesta questão, além de tudo o mais, um problema de autoridade democrática do Governo. Um precedente como este pode levar-nos muito longe: um republicano convicto, nomeado para um cargo público, poderá invocar as suas convicções privadas para desrespeitar a inqualificável eliminação do feriado de 5 de outubro na entidade que dirige?
* Artigo publicado no semanário Expresso de 25 de fevereiro de 2012 :: 25/02/2012